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[Cultura] Visibilidade para a religião afro-brasileira em Laguna ganha força com seminário

Postada em 08/11/2017 às 16:20:50

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[Cultura] Visibilidade para a religião afro-brasileira em Laguna ganha força com seminário
Encontro ocorreu no auditório do Iphan. (imagem: Marco Bocão/Decom)

Pela primeira vez, os praticantes da religião africana em Laguna estiveram reunidos em busca do respeito e conhecimento sobre os aspectos do patrimônio cultural dos negros no Brasil. Mãe, pai de santos, candomblecistas, batuqueiros, babalorixás, médiuns, admiradores e estudiosos mostraram a força das religiões de matriz africana num auditório lotado, no Iphan, na noite de terça-feira. 

O município tem 15 terreiros, parte dos seus representantes, integraram o seminário "Políticas de Patrimônio Afro-religioso e Mediação com o Estado", com palestra de Rossano Lopes Bastos, professor doutor em arqueologia brasileira (USP) e arqueólogo do Iphan de Santa Catarina e Danielle Alves de Souza, cientista social (USP), mestranda em Preservação do Patrimônio Cultural do Iphan. A coordenação do evento foi de Juliana Regazoli, produtora cultural, pesquisadora, conselheira da Cultura Afro-brasileira de Laguna. O presidente da Fundação Lagunense de Cultura, Márcio Rodriguês, esteve presente.

"A sociedade mais justa para todos nós", "Pensar na pluralidade", "Não ter vergonha da sua religião", "Amar uns aos outros", "Não ficar escondidos" foram frases argumentadas pelos participantes. 

"A intenção foi oportunizar a troca de conhecimento, dar visibilidade as religiões de matriz africana, compreender outras formas de pensar o mundo, promover o respeito as diferentes concepções do sagrado", descreveu Juliana.  

O professor Bastos promoveu uma aula de história através dos séculos. Enfatizou que a história do patrimônio afro brasileiro começou ser mais reconhecida a partir de 2000. O descaso com a cultura negra em todo o Brasil, não passou despercebido. "O patrimônio é muito ligado na elite branca. Casarões, prédios e igrejas de senhores e pessoas importantes foram preservados, enquanto aqueles pertencentes aos negros, não", lamentou o professor. Para ele, quanto maior a visibilidade da cultura afro, melhor a preservação da história de um povo. "Os terreiros promovem transmissão de conhecimento e têm um valor social muito importante", disse. 

Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os negros e pardos representam 54% da população brasileira.

A cientista social Danielle Alves de Souza fez um relato do descaso com a herança negra, apresentou história de terreiros preservados, onde tornaram-se patrimônio cultural.

Na década de 70, através da história oral tem-se o registro de terreiros em Laguna que permanecem atuante até os dias de hoje. 

Uma das remanescente esteve no seminário contando sua história, Dona Zilá, 66 anos, praticante da umbanda. "Tenho amor pela religião. Gosto do que eu faço e acredito no bem para as pessoas", disse ela. Em 2010, seu terreiro foi destruído pelo fogo num ato criminoso. "Ergui com ajuda dos meus amigos e não desisti". 

Um dos mais conhecidos pais de Santo de Laguna, o pai Gil, também contou sua história. Lembrou das grandiosas festas de Iemanjá na beira do mar. 

Intolerância religiosa é crime

O professor Bastos durante a roda de conversa explicou sobre a intolerância religiosa lembrando que é um crime que deve ser combatido. "Cada um tem o direito de interpretar o mundo como quiser e isso deve ser respeitado".

A Lei 9.459, de 1997, considera crime a prática de discriminação ou preconceito contra religiões. Ninguém pode ser discriminado em razão de credo religioso.

O conservadorismo crescente no Brasil serviu de alerta, com o preconceito, ofensas e o ódio aflorados. Todos concordaram na união para mostrar a paz e respeito.

Semana da Consciência Negra

Em Laguna, dados dos pesquisadores apontam uma demanda reprimida da cultura afro. Eventos e seminários pretendem dar maior visibilidade de uma população que contribuiu com o crescimento de todas as áreas para a cidade. 

A partir do dia 13 de novembro ocorre a Semana da Consciência Negra para a valorização da cultura afro. Dia 15, tem caminhada contra a intolerância religiosa no Mar Grosso. Novos seminários irão integrar o projeto "Patrimônio Cultural das Religiões de Matriz Africana", com previsão de encontros de novembro de 2017 a novembro de 2018, focando nos diversos aspectos do patrimônio cultural das religiões de matriz africana.

Neste ano, foi decretado 2 de fevereiro como Dia de Iemanjá, no calendário municipal, depois de anos com as festividades ocorrendo por todo o município sem um reconhecimento oficial. 

Texto: Taís Sutero - jornalista 

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